“O rio era uma sanga e hoje tem 70 metros”: geografia transformada, prejuízos milionários e a espera por recursos para melhorar a situação de Arroio Grande

“O rio era uma sanga e hoje tem 70 metros”: geografia transformada, prejuízos milionários e a espera por recursos para melhorar a situação de Arroio Grande

Foto: Rian Lacerda (Diário)

Ponte da Divisa foi Levada pela força das enchente de 2024

Quem percorre hoje as estradas de chão batido do distrito de Arroio Grande, no interior de Santa Maria, encontra uma geografia diferente daquela vivenciada pelos moradores mais antigos. Onde antes corriam pequenos córregos, atualmente existem leitos de rios com larguras que chegam a 70 metros, tomados por pedras, bancos de areia e vegetação. Desde as enxurradas de maio de 2024, passando pelas chuvas de 2025, o lugar vive um ciclo de reconstrução e de danos, que isolam famílias e causam prejuízos financeiros.

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O quarto distrito de Santa Maria concentra produção de hortaliças e de fumo,além da criação de gado. A região também é conhecida pelos balneários Ouro Verde e Zimermann, localizados em Três Barras e é um dos caminhos para Santa Maria e Silveira Martins, na Quarta Colônia. De acordo com a última atualização da prefeitura, quase 3 mil habitantes residem no local.


Nos últimos anos, o distrito vem enfrentando eventos climáticos extremos, que têm provocado problemas de infraestrutura, logística, produção e e até no turismo. Pontes, passagens e até o visual da região foram afetados pelas enchentes registradas em maio de 2024, junho de 2025 e, mais recentemente, em dezembro de ano passado. Três episódios de chuva que, mesmo com volumes menores em relação ao primeiro evento, resultaram em impactos acumulados por diversos cantos de Arroio Grande. Produtores ouvidos pela reportagem apontam o desassoreamento como o principal problema, já que os rios permanecem rasos e cheios de pedras deixados pelas últimas enchentes. Secretarias municipais e estaduais relacionadas ao tema apontam entraves financeiros e burocráticos como as principais dificuldades para a implementação de soluções.


Produtores sentem o prejuízo

Ponte da Divisa foi Levada pela força das enchente de 2024

A transformação da paisagem é visível para quem acompanha os movimento da natureza  no distrito. Ivan Pozzobon, 36 anos, vive há 35 na localidade de Três Barras e presenciou a alteração do curso da água. Segundo ele, o rio de antigamente desapareceu, dando lugar a uma força que avança sobre as margens a cada chuva forte. Ele mora após um local que tinha uma das pontes – conhecida como da Divisa – e que separa o distrito da cidade vizinha de Itaara. Com as chuvas, a estrutura ficou ou totalmente destruída. Para chegar até a propriedade dele, só é possível via uma passagem molhada (passarelas improvisadas sobre pequenos rios) que, com chuva forte, impossibilita a passagem. 


– Aquele rio era estreito. Hoje, aquilo ali está quatro vezes maior. Abaixo dos balneários (Ouro Verde...), tinha uma casa, era uma chácara e levou tudo. O morro cedeu e jogou o rio todo para a casa dele (de um morador). Como era muita chuva, o solo cedeu e jogou a terra e a água para o local – descreve Pozzobon.


A dificuldade de acesso afeta a economia local. Ele, que é produtor de fumo, relata que a falta de travessia segura prejudica a produção. Recentemente, a impossibilidade de passagem impediu o reparo na rede elétrica, o que gerou perdas no processo de secagem do tabaco.


– A gente depende disso para tudo. Eu perdi uma fornada de fumo estes dias, porque arrebentou os fios de luz e a equipe de energia não tinha como passar. Fiquei uns dias com o gerador, mas o combustível terminou e eu não tinha como sair para buscar. Santa Maria sempre deixou a gente nessa situação – relata Pozzobon.


Ajuda do município vizinho

Na Estrada Calduro, Roberto Silveira, 38 anos, vive situação semelhante. Morador do local desde 2010, ele trabalha com pecuária e viu a estrutura provisória de madeira, construída pelos próprios moradores, ser levada pelas águas em junho de 2025. Ele aponta que a manutenção da via tem dependido do município vizinho.

– De lá para cá, nós não tivemos mais apoio de Santa Maria para reconstrução. Essa estrada aqui, quem dá manutenção é Itaara. É Itaara que está nos dando apoio para poder ir para Santa Maria, senão nós não tínhamos como passar. A gente liga para a prefeitura e dizem que as máquinas estão em outro lugar, mas a gente não consegue atendimento – afirma ele.


O produtor explica que, na região,encontram-se diferentes cursos d'água, como o Arroio Grande, o rio que vem do Taboão e o "Custódio", formando o Três Barras, que dá nome a uma das localidades do distrito.

– Em 2024, a água entrou dentro de casa. Ficamos vários dias sem acesso, sem energia. Na lavoura, a água passou pelo meio e levou insumos. Não tem como medir o prejuízo. Tinha cano de irrigação, tem motor que ficou dentro d'água – conta o produtor, que solicitou à prefeitura o rebaixamento da estrada para que a água escoe pela via em vez de invadir as residências.

O receio de multas ambientais impede que os produtores intervenham por conta própria nos rios.
– Eles sempre falam que vai de cada um fazer. Mas se eu coloco uma máquina ali, a fiscalização vem. Com que autorização? Vão me multar. Não é complexo tirar areia de rio e afundar, mas a gente não tem segurança jurídica para mexer – relata Silveira.


Paisagem alterada 

Fotos mostram o antes e depois Foto 1: Google Maps (reprodução) Foto 2: Rian Lacerda (Diário)

As transformações geográficas no distrito de Arroio de Grande são profundas comparadas ao cenário do local anterior às enchentes. A estrada dos Fernandes, por exemplo, que concentra em grande maioria familiares de mesmo sobrenome, sofreu com a perda da ponte, passagem que ligava a via principal até as residências. De lá pra cá, uma passagem molhada permite que esses moradores façam a travessia, salvo em dias com chuva forte em que o rio enche.


Com a ligação interrompida e para não perderem a produção armazenada em câmaras frias, agricultores como Enio Fernandes, 64 anos, realizam o transporte manual em dias de cheias e, conforme o Diário já mostrou na enchente que ocorreu no Natal, os veículos param na margem do arroio e as caixas de alimentos são carregadas até o outro lado por um veículo maior.


– A ponte que nós tínhamos era de 40 metros. Agora, se for fazer a ponte aí, ela vai dar em torno de 55 metros ou mais, porque aumentou muito. Aquele riozinho era pequeno, tinha uns cinco metros, agora eu acho que tem uns 30. Nessa última chuva do Natal, ficamos ilhados. Tivemos que esperar baixar a água e a prefeitura colocou 30 cargas de pedra para nós podermos cruzar – afirma Enio.

A esperança dele e demais moradores dali, é as obras da pranchada que estavam começando a ser realizadas no local pela prefeitura de Santa Maria. Obra que deve permitir uma travessia mais segura. 


Perda inestimáveis 

Destruição na lavoura de alfaces da propriedadeFoto: Arquivo Pessoal

Já na propriedade do irmão do agricultor, que fica a cerca de um 1km já na estrada principal de Três Barras, os prejuízos de Oneide Fernandes, 58 anos, são mais expressivos. Considerado um dos maiores produtores da região, ele estima ter perdido R$ 200 mil com as enchentes de maio de 2024.

– Acordamos de madrugada com o carro com água dentro da garagem. A casa ficou alagada. Tirei 50 cargas de caçamba para tapar os buracos que a água fez. A lavoura vai até a beira do rio, a água só não levou tudo porque parou – relata Oneide.

Oneide fernandes e sua esposa Daniele Fernandes

Oneide questiona a eficácia das medidas provisórias, como os aterros de pedra que são levados pela força da água, e cita exemplos de obras que funcionaram, como a contenção de concreto construída logo no inicio das pontes da ERS-511, rodovia  que leva ao distrito de Arroio Grande.


– A gente pediu para fazer aquela contenção de pedra e nunca mais aconteceu nada. Eles dizem que é muito custo, mas nós dissemos que todo custo que foi feito sem isso foi perdido. Até não resolver esse problema das pontes e do desassoreamento, como é que a gente vai ter tranquilidade? – questiona o produtor.


Não precisa andar muito para encontrar mais cenários de destruição. Na estrada da Invernadinha, o cenário mudou: onde deveria ser uma estrada, virou grandes volumes de terra, pedras, restos de postes e árvores. A ponte foi destruída e o trajeto que poderia ser feito em poucos minutos até a sede urbana do distrito, agora precisa ser percorrido em mais tempo devido à volta maior do caminho alternativo. Imagens do Google também mostram o cenário de antes e depois:

Antes e depois da estrada da InvernadinhaFoto 1: Google Maps (reprodução) Foto 2: Rian Lacerda (Diário)

Desassoreamento é a solução mais urgente

Uma vistoria técnica conjunta, realizada pela Secretaria Estadual de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedur) e pela prefeitura de Santa Maria, identificou que a causa central dos transbordamento é o assoreamento, que é um problema provocado pelo acúmulo de sedimentos, como terra, areia e pedras, o que elevou o fundo do rio, reduzindo sua profundidade. Como consequência, a água transborda com facilidade e nem precisa de um grande volume de chuva.


No caso de Arroio Grande, a vistoria classificou a obra como uma intervenção de "grande porte". Questionado, o Estado informou que, para ser executada, ela necessita da destinação de novos investimentos em futuras fases do programa Desassorear e do cadastramento de uma proposta específica, já que os recursos iniciais foram direcionados à zona urbana.


A Sedur já realizou serviços em Santa Maria ao longo de 2025 no âmbito do programa Desassorear, mas as ações iniciais foram concentradas em áreas urbanas. Em abril, foi autorizada a primeira etapa no Bairro Lorenzi, onde foram removidos cerca de 32 mil metros cúbicos de sedimentos. Em novembro, a prefeitura solicitou o remanejamento de parte dos serviços para atender também os arroios,como o Cancela.


Custo estimado de R$ 18 milhões para desassorear 

O secretário de Desenvolvimento Rural de Santa Maria, Marcelo Dalla Corte, confirma a complexidade apontada pela vistoria estadual. A estimativa técnica é de que, para desassorear todo o Arroio Grande, desde a ponte dos Bona até a RSC-287, seriam necessários cerca de R$ 18 milhões apenas em horas de trabalho de máquinas. Ele explica que o desassoreamento é necessário para recolocar o rio no curso e permitir a construção de contenções, como os gabiões, que são proteções de concreto com arame e caixas de pedra para que a água bata e continue no fluxo correto.


– Não conseguimos fazer isso agora porque, primeiro, é preciso desassorear – detalha Dalla Corte.


Para o secretário, a liberação do recurso depende de articulação política, visto que dois dos quatro projetos cadastrados já foram aprovados. Ele pondera que seria uma questão de vontade política e que, se não for possível enviar os R$ 18 milhões, o envio de parte do recurso já permitiria o início dos serviços.


Asfalto que funciona como represa

Dalla Corte também destacou um problema estrutural na ERS-511. Segundo ele, há um movimento da comunidade para solicitar ao Departamento Autônomo de Estradas de Rodagem (Daer) a instalação de tubos sob a pista da estrada estadual, similar ao que esta sendo feito na RSC-287 pela Rota de Santa Maria, que é quem administra a rodovia. O secretário acrescenta que o asfalto funciona como uma grande represa que segura a água e que o pedido é para que existam dutos em alguns pontos, não apenas nos rios, para permitir a vazão.


Pontes, "pranchadas" e parceria entre pastas

Enquanto a solução estrutural de desassoreamento aguarda recursos, o município adota a estratégia das "pranchadas" – passagens molhadas de concreto projetadas para permitir que a água passe por cima sem destruir a estrutura. Dalla Corte ressalta que essa é uma exigência federal e uma condição da Defesa Civil Nacional, em que o município fornece a passagem molhada, enquanto a obra da ponte é executada. Após a conclusão das pontes, essas estruturas improvisadas deverão ser retiradas.

Atualmente, 17 novas pontes estão em processo de licitação ou análise pela Caixa Econômica Federal. O secretário enfatiza que o trabalho no distrito é fruto de uma união de esforços, ressaltando a parceria entre as secretarias de Desenvolvimento Rural e a Secretaria de Infraestrutura, além do apoio da Sedec e da Sedur, pastas estaduais.

Para manter a manutenção mínima, a prefeitura mantém equipamentos fixos no local. Dalla Corte afirma que a escavadeira do município não saiu do distrito de Arroio Grande durante todo o ano de 2025, realizando serviços exclusivamente na localidade.


Danos registrados 

A gravidade da situação em Arroio Grande está documentada nos decretos de emergência do município. O Decreto mais novo, de 30 de dezembro de 2025, detalha danos estruturais que somam quase R$ 3 milhões apenas em infraestrutura pública no distrito. O documento lista o comprometimento estrutural de uma ponte de concreto avaliada em R$ 1,48 milhão, além de cinco passagens molhadas com prejuízo estimado em R$ 950 mil e quatro cabeceiras de ponte que somam R$ 440 mil em danos.


O relatório técnico aponta que o volume de chuva acumulado provocou deslizamentos de encostas e o transporte de resíduos sólidos para o leito dos rios, agravando o cenário a cada novo evento. 


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